terça-feira, 3 de outubro de 2023

Colocar dinheiro do bolso, enfrentar recall, pivotar e demitir: os bastidores do sucesso, segundo fundadores de startups

 


Da esquerda para a direita: Marcia Netto, Daniel Scandian, duardo L'Hotellier e Kristen Durham — Foto: Beto Lima/Vamos Latam Summit
Da esquerda para a direita: Marcia Netto, Daniel Scandian, duardo L'Hotellier e Kristen Durham — Foto: Beto Lima/Vamos Latam Summit

Em janeiro de 2021, a MadeiraMadeira anunciou ao mercado um aporte de US$ 190 milhões em uma rodada série E coliderada pelo SoftBank Latin America Fund e a Dynamo -- o que levou a plataforma de móveis e itens de decoração a se tornar o primeiro unicórnio da América Latina naquele ano. Mas o sucesso em atrair investidores não aconteceu "da noite para o dia", lembra o cofundador Daniel Scandian, em painel cuja temática era exatamente esta: "‍The mith of overnight success", realizado durante o Vamos Latam Summit, evento promovido pela Latitud em São Paulo.

"Nos primeiros três anos, entre 2009 e 2012, não recebemos nenhum aporte. Quando conseguimos levantar o primeiro financiamento, o tamanho das rodadas era muito menor do que é hoje, mas foi ótimo para criar o mindset de uma companhia que não depende só do capital de fora para crescer. Hoje temos 11 investidores, entre family offices e VCs, mas sobrevivemos de bootstrapping [uso de recursos próprios] durante muito tempo", recorda Scandian, que dividiu o painel com Eduardo L'Hotellier, fundador e CEO da GetNinjas, e Marcia Netto, ex-Minha Vida, ex-Sallve e agora fundadora da fintech Silverguard. A conversa foi mediada por Kristen Durham, da Zendesk.

L'Hotellier compartilhou com a plateia a história de quando começou a desenvolver, em 2010, o protótipo do produto que daria origem à GetNinjas, plataforma de contratação de serviços. "Quando começamos a construir o produto, trabalhamos durante um ano sem falar com um único usuário. Foi um erro grande, porque, de repente, precisávamos resolver um problema e não sabíamos como. Então, pivotamos o produto, passamos dois meses trabalhando dia e noite, e pensamos em 10 produtos diferentes. Muitos anos depois e lições aprendidas, hoje não desenhamos nenhum código antes de falar com um usuário", relatou.

A GetNinjas passa por um processo de reestruturação desde 2021 -- mesmo com o IPO em maio daquele ano, quando levantou R$ 500 milhões, a empresa teve de fazer cortes e reduzir despesas. Houve uma demissão em massa, no segundo trimestre de 2023, por exemplo, que atingiu a diretoria da empresa. A startup encerrou o período com lucro líquido de R$ 1,5 milhão, o primeiro resultado positivo desde o IPO.

Marcia Netto, que atuou no portal de saúde MinhaVida e é cofundadora da Sallve, startup de cosméticos de Julia Petit, hoje se dedica à Silverguard, fintech de proteção financeira contra golpes e crimes digitais, fundada pela executiva em março deste ano. "Não foi fácil tomar a decisão de sair de uma empresa já em rodada série B para começar tudo de novo", relatou. "Identifiquei uma oportunidade de mercado para meu próximo negócio", acrescentou.

Marcia segue como membro do conselho da Sallve e compartilhou alguns dos bastidores (e percalços) da vida de uma startup até o sucesso. "Tínhamos acabado de receber nosso aporte na rodada série B e precisamos fazer o recall de um produto", relembra. Em outubro de 2019, a marca anunciou o recall do Esfoliante Enzimático, terceiro produto da startup que havia sido recém-lançado. "Como tínhamos um contato muito próximo com o consumidor, percebemos o problema em dois dias. Em uma semana, havíamos tomado a decisão do recall. Foi um momento muito desafiador da companhia", contou.

Latino-americanos acostumados com crises

Francisco Alvarez-Delmade, segundo palestrante do dia, compartilhou com a plateia seus insights como investidor. "Talvez eu seja a voz otimista do evento, mas é porque é realidade, eu vivo isso. Há muita oportunidade [de negócios] na América Latina", afirmou, em bate-papo conduzido por Daniel Cancel, da Bloomberg. Alvarez-Delmade é cofundador da Riverwood Capital, fundo de US$ 6 bilhões, que liderou investimentos e foi conselheiro e/ou diretor de diversas empresas, incluindo 99, Dock e RD Station.

Ele citou três setores que vê com força na América Latina -- em alguns casos à frente de lideranças globais em tecnologia, como é o caso das fintechs brasileiras, cujo ecossistema tem se revelado mais bem desenvolvido do que o dos Estados Unidos. "Quando olhamos para a infraestrutura dessas fintechs, é realmente muito avançado. Também aposto no varejo e no segmento de digitalização de serviços para o consumidor", acrescentou.

Francisco Alvarez-Demalde — Foto: Beto Lima/Vamos Latam Summit
Francisco Alvarez-Demalde — Foto: Beto Lima/Vamos Latam Summit

O investidor ainda elogiou a capacidade dos empreendedores latino-americanos de se adaptarem a momentos desafiadores do mercado. "Quando o Silicon Valley Bank quebrou, o ecossistema nos Estados Unidos estava desesperado. Eu brinquei com um amigo: 'Ok, você quer ligar para a minha mãe para se acalmar?' Porque ela nasceu na volatilidade. Nós, latino-americanos, nascemos e crescemos na crise. Quantas ondas diferentes já vivemos? Isso, de alguma forma, nos dá uma certa vantagem na medida em que o mundo fica mais complexo", disse.

Para os fundadores que estão preocupados com a seca de capital, ele mandou um recado: "Ainda assim, o ecossistema é 10 vezes melhor hoje do que era há 15 anos. Continuem trabalhando".


fonte: época negócios

Nenhum comentário:

Postar um comentário

O ICMS e o princípio da seletividade nos setores de energia elétrica e de telecomunicações

 Espera-se que a decisão proferida pela Corte Suprema, haja vista sua força vinculante em relação ao Judiciário, venha ratificar a aplicação...